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id da página: 10304 SABEDORIA METAFÍSICA – O PRIMEIRO

Sabedoria Metafísica


VIDE: SER SUPREMO


Christophe Andruzac: RENÉ GUÉNON, LA CONTEMPLATION MÉTAPHYSIQUE ET L'EXPÉRIENCE MYSTIQUE

O primeiro tempo desta Sabedoria Metafísica não é de «demonstrar a existência de Deus»: com efeito o nome de «Deus» não é propriamente filosófico posto que é recebido nas tradições religiosas anteriores (segundo a ordem do devir da inteligência) a todo esforço filosófico. Disto decorre que esta «demonstração» refere-se a uma perspectiva apologética, e não propriamente filosófica. O primeiro tempo não também de traçar um «balanço» das concepções religiosas da humanidade e dos filósofos para disto tirar uma trama das «constantes», trama que possa servir de ponto de partida, pois esta démarche é crítica (reflexiva), logo segunda.

Segundo a ordem do devir de nossa inteligência, o primeiro tempo consiste em estabelecer e a desenvolver uma hipótese: se a existência de um Primeiro na ordem do ser é possível, Primeiro que é idêntico Àquele que as tradições religiosas chamam Deus, quais são os obstáculos, quais são os pseudo-problemas, quais são os impasses, etc. É necessário então conduzir um estudo crítico aprofundado destas diversas posições e rejeitá-las energicamente: as doutrinas que buscam um Primeiro capaz de finalizar o coração humano (mantém-se ao nível afetivo e moral); aquelas que buscam um Primeiro na ordem da perfeição (mantém-se na ordem das ideias: Descartes, Espinoza, etc.); aquelas que, em uma perspectiva inversa, recusam admitir a existência de um divino Todo-Poderoso oprimindo a liberdade do homem (Nietzsche, Marx, Sartre, etc. — pois analisa-se o condicionamento da liberdade humana, perspectiva que necessariamente não poderá jamais concluir em sim ou em não a existência de um Primeiro na ordem do ser), etc. Nos é necessário em seguida buscar o gênero de caminho que pode tomar nossa inteligência em sua busca de um Primeiro na ordem do ser. Este caminho consistirá em essencial a esclarecer o universo objeto de nossa experiência filosófica pela luz que constitui a descoberta do ser-em-ato que fizemos em Noções Filosóficas e a nos perguntar: este Primeiro que buscamos não seria no tocante ao universo objeto de nossa experiência como (este «como» devendo talvez ser tomado em sentido amplo e distante) o ser-em-ato é no tocante ao ser-em-potência? Ou ainda: o universo objeto de nossa experiência (e nós mesmos) não dependeria de um Primeiro como o ser-em-potência depende do ser-em-ato (e não de vida, seja biológica, intelectual, afetiva, etc. — estamos ao nível do ser) segundo-o-fim?

A partir desta hipótese, em um segundo tempo o Nous (a inteligência especulativa e contemplativa) vai descobrir cinco grandes modalidades fundamentais e irredutíveis de ser-em-potência do universo objeto de nossa experiência direta; por isso que Tomás de Aquino usualmente denominava as cinco «vias», o Nous se eleva para a descoberta de um Primeiro na ordem do ser. Este Primeiro é Ser-em-ato, Ato Puro. O «nervo» disto que é para a inteligência humana sua démarche mais difícil pode ser assim enunciado: o que implica ao mesmo tempo ato e potência em um ser não pode ser primeiro na ordem do ser. A capacidade de amar que está em mim me leva para um outro, um amigo que meu bem e do qual sou reciprocamente o bem. Se não posso ser para mim mesmo meu próprio bem, é que sou imperfeito. Sou a fonte de meus amores, mas não sou a causa que haja em mim uma capacidade de amar. Esta capacidade de amar, considerada enquanto ser (e não considerada em seu exercício, nem em sua causa eficiente), depende necessariamente de um Bem Primeiro em que ser e bem se identificam. A descoberta desta dependência é impossível se não se distingue a ordem do ser da ordem do amor espiritual, pois ela significaria que é o Bem Primeiro (e ele somente) que finaliza meu amor — o que contradiria a experiência de base, a relação ao amigo. Na ordem de exercício da amizade meu amor depende de meu amigo como sua causa final, mas na ordem do ser minha capacidade de amar não depende mais de meu amigo mas de um Bem Primeiro que é Ato Puro. Na ordem do ser, e somente nesta ordem, minha capacidade de amar depende de um Bem Primeiro como o ser-em-potência depende do ser-em-ato.

Pode-se desenvolver outras «vias» de maneira similar partindo da experiência filosófica mais comum: sou capaz de conhecimento intelectual da verdade, mas posso me enganar, logo sou imperfeito e de fato não sou a causa que há em meu ser uma capacidade de conhecimento intelectual. Logo esta capacidade, considerada como ser (e não em seu exercício)), depende de uma Verdade Primeira que é Ato Puro de ser e de conhecer, e em quem ser e conhecimento são idênticos. Minha vida biológica morrerá um dia, logo ela é imperfeita. Esta capacidade de viver que está em mim, considerada não em seu exercício mas enquanto ser, depende de um Outro Vivente como sua causa (de ser) que a move sem ser movida.

O terceiro tempo da Sabedoria Metafísica se esforça por precisar a maneira de ser deste Primeiro: ele é Vida, Amor, Inteligência, logo Espírito e Pessoa. Ele é um «fato de ser» (ti esti) supremo não limitado pelos diversos «como» (pos) de nosso universo. Não podendo dele ter uma ideia distinta e adequada, a inteligência o nomeia «transcendente». Estando diante do ser como uma coruja diante da luz do sol, segundo a imagem de Aristóteles, a inteligência humana, em sua fraqueza, não tem experiência direta, experiência filosófica deste Primeiro, não conhecendo senão como a fonte dos grandes «abalos metafísicos» de nosso ser, senão como a fonte (ao nível do ser) de tudo o que em nós advém do ser-em-potência: nossas capacidades de trabalhar, de viver, de conhecer, de amar, etc.

Um quarto tempo pode ser chamado «perspectiva de Sabedoria»: tendo descoberto a existência deste Primeiro, a inteligência pode lançar um novo olhar sobre o que é para ela objeto de experiência direta, um olhar que não procede mais unicamente por indução da experiência mas que utiliza a descoberta da dependência (ao nível do ser) de todo ser de um Primeiro; é esta dependência que em sentido estrito se chama «criação».

Esta «perspectiva de Sabedoria» ou «olhar de Sabedoria», permite identificar o Ser Primeiro ao «divino» que se «revela» ou se «manifesta» em diversas religiões ou diversas Tradições: ele descobre que a dependência radical (na ordem do ser) do homem e do universo objeto de sua experiência direta de um Ser Primeiro constitui a raiz primeira de uma número grande de outras relações mais próximas das possibilidades concretas da humanidade. Além das experiências do trabalho, do amigo e do cidadão, este olhar de Sabedoria descobre uma nova dimensão antropológica fundamental: o homem religioso, o homem em busca de um contato com o divino. Este «olhar de Sabedoria» se completa em um quinto e último tempo: a busca pelo homem do contato com o divino. É o último tempo que merece eminentemente o nome de Sabedoria.


Gilis: DOUTRINA INICIÁTICA DA PEREGRINAÇÃO

A marifa se relaciona de maneira específica a um certo aspecto da ciência do Uno, al-Ahad, que é ela mesma, de resto, de ordem exclusivamente metafísica. Para compreender o porte dos comentários de Ibn Arabi sobre Arafa, convém logo se referir de pronto à «doutrina metafísica do Uno». Pode-se distinguir a Unidade da Essência, a Unidade de grau ou de nível e a Unidade da multiplicidade. Esta distinção corresponde àquela estabelecida por Guénon entre o Princípio Supremo, o Ser e a Existência Universal.

A Unidade da Essência é o segredo (sirr) iniciático supremo. Representa, segundo Michel Valsan um equivalente islâmico preciso da doutrina do Si Mesmo «ao mesmo tempo Princípio Supremo e princípio de cada um dos seres». Esta «unidade» está com efeito misteriosamente presente em toda criatura.